Paulo Bocca Nunes – 26 de dezembro de 2024
Observo pela janela a dança do tempo, que escorre pelas dobras da cortina. Há algo hipnótico na forma como o vento brinca, atravessando o vazio, levando consigo as folhas e os suspiros esquecidos de outros dias.
Eu, outrora tão criativo, me entrego a essa força eólica que me arrasta ao infinito dos meus pensamentos. Eles são traiçoeiros, ora bons, ora maus, ora sorrateiros, como sombras que se escondem e reaparecem no brilho da memória. Esperam pacientemente pelas lágrimas da saudade — saudade de um outro tempo, de uma outra vida.
Era o tempo em que eu sonhava, e os sonhos não eram perecíveis. Não havia data de validade para o que imaginava. O sonho era real, a realidade, possível. Havia uma conexão fluida, quase tátil, entre o que queria e o que podia. Mas agora, ao olhar para o horizonte através da janela, vejo apenas os rastros do que foi.
Tropeço no hoje, aos 63 anos de idade, como quem esbarra em uma pedra que sempre esteve ali, mas que nunca antes havia percebido. Os sonhos, aqueles companheiros fiéis de outrora, não se estabeleceram. Foram brincar com o vento.
E o vento, esse mesmo que sopra agora pela janela, me faz um aceno. Não sei se ele me convida a seguir ou se apenas se despede. Mas algo nele carrega uma promessa, um lembrete: ainda há tempo para dançar, para permitir que a vida sopre novos sonhos em minha direção. E quem sabe, como as folhas que ele carrega, eu também possa encontrar um novo rumo ao sabor dessa brisa eterna.
Ao Sabor da Brisa Eterna – Poesia
Pelas dobras da cortina, o tempo escoa,
Um rio invisível que o vento conduz.
Brincam as folhas, dançam as sombras,
E em cada suspiro, um eco reluz.
Outrora criativo, ergui meus castelos,
Sonhos imensos, reais e possíveis.
Hoje, aos 63, encaro os espelhos,
Onde o tempo escreve linhas invisíveis.
Ah, os pensamentos, traiçoeiros que são,
Ora bons, ora maus, ora sóbrios e tardios.
Guardam saudades de eras douradas,
Quando o sonho era eterno, sem desafios.
Os sonhos fugiram, dançando no vento,
Como folhas ao longe, brincando na brisa.
Mas o vento, audaz, traz seu alento,
Um gesto sutil que a alma avisa.
“Ainda há tempo,” ele sussurra e chama,
“Deixe o passado ser poeira ao chão.
Erga-se, humano, renove a chama,
Pois o futuro é teu, uma nova canção.”
E assim, na janela, contemplo e aceito,
Que a vida é um vento, incessante e voraz.
Que os sonhos que dançam, talvez imperfeitos,
Podem voltar, se eu for capaz.