Coletânea de contos produzidos entre 1996 e 2014. A vida humana enfrenta seus conflitos e busca soluções que desencadearam consequências impressionantes.

Tamanho: 14 x 21 cm
Número de páginas: 80
ISBN 978-85-66992-01-4
Livro Físico
R$ 12,00 (em promoção) + REMESSA PELO CORREIO.
Almas Esquivas é um livro sobre aquilo que escapa — não apenas pessoas que se afastam, mas sentimentos que não se deixam nomear facilmente, decisões que chegam tarde, afetos que se desencontram de si mesmos. O título funciona como metáfora central: há, em cada personagem, uma dimensão que evita o confronto direto, que se protege, que contorna a dor ou a verdade como forma de sobrevivência.
Ao longo dos contos, o que se vê não são heróis ou vilões, mas seres humanos em estado de tensão: entre ficar e partir, calar e falar, insistir e desistir, sonhar e aceitar. São histórias marcadas por silêncios densos, ironias sutis, memórias persistentes e pequenas epifanias — momentos em que algo se revela, ainda que não se resolva.
O livro transita por diferentes ambientes sociais e emocionais, mas mantém uma unidade temática: a dificuldade de habitar plenamente a própria vida. As “almas” aqui não fogem necessariamente do mundo; muitas vezes fogem de si mesmas, de suas escolhas, de suas responsabilidades ou de seus desejos mais profundos.
No entanto, se há esquiva, há também lampejo. Em meio a frustrações, quedas e despedidas, surgem instantes de consciência que iluminam os personagens — como se, por breves segundos, deixassem de escapar e se permitissem enxergar quem realmente são.
Almas Esquivas é, assim, um livro sobre movimento interior. Não oferece respostas definitivas, mas convida o leitor a reconhecer, nas histórias alheias, as próprias tentativas de fuga — e talvez também suas possibilidades de retorno.
O QUE TRAZ O LIVRO
Nas asas de uma lenda
“Nas asas de uma lenda” é um conto sobre o conflito silencioso entre vocação e conformidade. A trajetória de Sandro Ícaro de Castro não é apenas a de um homem que sobe uma montanha com uma asa delta nas costas, mas a de alguém que tenta reconciliar o menino que olhava para o céu com o adulto que aprendeu a baixar os olhos. Entre lembranças de repressões familiares, incompreensões sociais e frustrações afetivas, a narrativa constrói um retrato sensível daquilo que acontece quando o sonho é tratado como desvio.
Ao evocar o mito de Ícaro, o conto questiona se o verdadeiro risco está em voar ou em nunca tentar. A queda, aqui, não é apenas física: é simbólica, repetida ao longo da vida sempre que o protagonista cede às expectativas alheias. Mas também há resistência — uma insistência quase trágica em afirmar a própria identidade contra o coro de vozes que o chamam de louco.
Mais do que uma história sobre aventura, trata-se de uma reflexão sobre liberdade, coragem e o preço de ser diferente. Entre o abismo e o céu, Sandro confronta a pergunta essencial: viver é obedecer ao chão ou aceitar o risco das alturas?
Marta e Angélica
“Marta e Angélica” é um retrato cru da sobrevivência quando a dignidade se torna um conceito instável. Confinadas em um apartamento que funciona ao mesmo tempo como abrigo e vitrine, as duas mulheres travam um duelo verbal que revela mais do que divergências práticas: expõe feridas, culpas e versões distintas de liberdade. Enquanto uma encara a própria condição com ironia e pragmatismo, a outra tenta preservar algum resquício simbólico de controle sobre a própria queda.
O conto não se limita a abordar prostituição ou crise econômica; ele investiga o modo como as escolhas são moldadas por circunstâncias, desigualdades e desilusões. A janela — recorrente na narrativa — funciona como metáfora da distância entre o mundo que passa e a vida que parece suspensa. A andorinha, breve e silenciosa, sugere a memória de um tempo em que ainda era possível sonhar com deslocamentos menos dolorosos.
Entre acusações e confissões, Marta e Angélica revelam que a marginalização não é apenas social, mas também íntima: cada uma julga na outra aquilo que não consegue perdoar em si mesma. O conto questiona se existe, de fato, uma linha clara entre queda e escolha — ou se, em certos contextos, sobreviver já é uma forma amarga de resistência.
O Castelo do Silêncio
“O Castelo do Silêncio” é um conto sobre aquilo que não se diz — e sobre o peso devastador das palavras quando finalmente rompem o mutismo. No alto de um morro, dois irmãos observam as luzes da cidade como quem contempla uma promessa distante. Entre eles, instala-se um silêncio que não é ausência de som, mas excesso de tensão: frustração, medo, ressentimento e esperança comprimidos em diálogos breves e cortantes.
A repetição da palavra “silêncio” funciona como muralha invisível. Cada interrupção revela a dificuldade de comunicação em uma família marcada por abandono, precariedade e a ameaça constante de desintegração. Isaías tenta transformar a revolta em projeto de fuga; Rute tenta transformar a fragilidade em vínculo. No centro dessa tensão está a mãe — e a sombra do irmão perdido — como símbolos de uma estrutura familiar que resiste, ainda que trincada.
O “castelo” do título não é feito de pedra, mas de contenção emocional. Ali, cada personagem protege-se como pode: uns sonham com evasão, outros com pertencimento. O conto questiona se romper o silêncio é sempre libertador ou se, em certos contextos, ele é a única forma de manter de pé aquilo que ainda não desabou.
A Vida Poderia Ser…
“A Vida Poderia Ser…” é um conto sobre o instante quase invisível em que a resignação começa a se transformar em consciência. Teresa, mulher marcada por anos de trabalho doméstico não reconhecido e por um casamento sustentado por papéis rígidos, vive aprisionada em uma rotina que parece natural demais para ser questionada. Entre vassouras, canteiros e discussões repetidas, sua existência segue como um ciclo automático — até que uma conversa com a filha abre uma fenda naquilo que parecia imutável.
O embate entre gerações revela mais do que diferenças de opinião: expõe a passagem de um mundo regido pelo silêncio e pela submissão para outro que começa a nomear direitos, escolhas e possibilidades. Clara não confronta apenas o pai; confronta uma estrutura inteira que ensinou Teresa a não pensar sobre si mesma. O sonho da “outra Teresa” funciona como metáfora da identidade interrompida — a mulher que poderia ter sido e que, de algum modo, ainda pode emergir.
Sem abandonar o tom cotidiano e até bem-humorado, o conto discute autonomia feminina, educação e transformação social. Ao final, não se trata apenas de dividir tarefas domésticas, mas de revisar leis invisíveis que sustentam desigualdades. A pergunta que ecoa não é apenas “como a vida é”, mas sobretudo: até que ponto ela ainda pode ser diferente?
Kamikaze
“Kamikaze” é um conto sobre a vertigem da memória e os movimentos circulares do destino. Diante de um brinquedo que gira violentamente no ar, Romilda não vê apenas uma atração de parque, mas a materialização de suas próprias quedas e reencontros interrompidos. Enquanto a neta enxerga diversão, ela enxerga risco — porque sabe que nem toda vertigem termina em riso.
A narrativa constrói um delicado paralelo entre o carrossel do passado e o kamikaze do presente. O primeiro simboliza o amor nascente, a fantasia, o “e se…?” que nunca pôde se concretizar; o segundo representa a brusca descida da realidade, as perdas sucessivas e a força da gravidade que puxa a vida para o chão. Entre esses dois movimentos — o sonho circular e a queda abrupta — Romilda atravessa juventude, casamento, viuvez e luto.
Mais do que uma história sobre parques de diversão, o conto reflete sobre escolhas interrompidas, oportunidades silenciadas e a repetição quase cruel dos desencontros. O nome do brinquedo evoca o impulso fatal do mergulho sem retorno, mas também sugere coragem — a coragem de enfrentar aquilo que assusta. Ao final, permanece a pergunta implícita: é possível romper o ciclo e olhar para trás, ou certas vidas estão condenadas a girar eternamente entre o que foi e o que poderia ter sido?
Armando
“Armando” é um conto irônico sobre a força — e o perigo — da retórica. Desde criança, o personagem revela um talento quase sobrenatural para argumentar. Um simples zero numa prova transforma-se em tese sociológica sobre exclusão, trauma e marginalidade. Ali já está plantada a semente do político: não importa o erro, importa a narrativa.
O zero torna-se símbolo recorrente. Não é apenas uma nota; é a primeira derrota formal diante de uma regra que ele não conseguiu dobrar. A partir daí, a vida de Armando passa a ser uma tentativa constante de reinterpretar leis — escolares, sociais, políticas — para que se ajustem à sua vontade. Ele não busca necessariamente mudar a realidade; busca enquadrá-la no discurso.
A eleição ao grêmio estudantil, a proposta de música nas aulas de matemática, a revista cultural com citação de Bertolt Brecht — tudo aponta para alguém que compreende o poder simbólico das palavras. O trecho de “O pão do povo” reforça a ironia central: Armando fala de justiça como pão, mas parece mais interessado em administrar a padaria do discurso do que em alimentar alguém.
O desaparecimento e o retorno ao lado de um deputado completam o arco narrativo. O menino que queria uma lei contra o zero torna-se assessor legislativo. A obsessão infantil vira profissão. A frase “fui beneficiado pela lei do livre arbítrio e saí daquele meio arbitrário” sintetiza sua trajetória: jogo de palavras que soa profundo, mas esconde ambição e oportunismo.
O narrador funciona como contraponto. Ele observa, duvida, ironiza. Ao final, a lembrança da professora — “Isso é tão certo quanto eu sou a princesa de Mônaco” — ganha novo peso. O que era piada pode ter virado profecia invertida: talvez Armando realmente possa chegar longe. Não por mérito técnico, mas por habilidade em ocupar os espaços deixados pela apatia dos outros.
O conto sugere algo inquietante: a sociedade forma seus Armandos. A escola faz “sua parte”, como diz o professor, mas o mundo político absorve exatamente esse tipo de perfil — alguém que transforma qualquer derrota em argumento e qualquer argumento em projeto de lei.
No fim, a pergunta não é se Armando pode virar presidente.
É se sempre houve, dentro dele, um presidente em miniatura — discursando desde o berço.
Procurando Apartamento
“Procurando Apartamento” é uma comédia de desencontros conjugais que revela, por trás do humor ácido, a fragilidade das ilusões construídas a dois. Edgar e Camila caminham por um bairro decadente à procura de um novo lar — mas o que está realmente em jogo não é um imóvel, e sim a sustentação de um casamento que oscila entre promessas grandiosas e frustrações acumuladas.
O contraste entre o antigo “Solar de Vienne” e o prédio sem elevador funciona como metáfora da queda social e simbólica do casal. Edgar representa o eterno empreendedor movido por fé quase mística na “mudança que está no ar”; Camila encarna o desejo de reconhecimento, brilho e ascensão artística. Ele aposta no futuro; ela lamenta o presente. Entre negócios fracassados e ensaios perdidos, o amor passa a ser medido por planilhas invisíveis de perdas e compensações.
O diálogo afiado expõe um jogo de acusações que mistura ironia, ressentimento e dependência emocional. A separação surge como ameaça teatral — quase um ato dramático ensaiado — mas revela algo mais profundo: ambos temem que, sem o outro, suas próprias narrativas percam sentido. O casamento é ao mesmo tempo prisão e palco.
A súbita intervenção da mãe — figura ausente, porém determinante — introduz um elemento quase farsesco: a salvação externa que desmonta a tragédia iminente. A estabilidade não vem do esforço do casal, mas da estrutura que sempre esteve à sombra, pronta para intervir. O gesto final, com Camila empurrando Edgar para o banco de trás, sela a ironia: mesmo à beira da ruptura, eles continuam juntos — talvez não por maturidade, mas por hábito, conveniência e afeto entrelaçados.
No fundo, o conto questiona se o amor sobrevive às crises financeiras ou se apenas se adapta a elas. E deixa suspensa uma inquietação delicada: o que mantém duas pessoas unidas — o sonho de um “castelo” ou o medo de enfrentar a própria vida sozinha?
Natalino
“Natalino” é um conto sobre a despedida que não se anuncia como tragédia, mas como retorno. O velho gaúcho, já debilitado pela doença, encontra na memória a última forma de liberdade: enquanto o corpo enfraquece, a imaginação cavalga. O campo que sempre foi seu território físico transforma-se em paisagem interior — espaço de pertencimento, identidade e transcendência.
A narrativa constrói uma delicada transição entre o mundo concreto e o simbólico. A luz da tarde, mais intensa e sem calor, a ausência de respostas na casa, o vigor inesperado ao montar no cavalo — tudo sugere uma passagem que não é brusca, mas natural, quase serena. A morte não aparece como ruptura, e sim como continuidade da lida. O gaúcho que sempre enfrentou estiagens, geadas e perdas agora encara o derradeiro trajeto com a mesma dignidade com que conduziu a fazenda.
O diálogo imaginado com o “Grande Patrão” revela o cerne do conto: a vida como prestação de contas simples, feita não de títulos ou riquezas, mas de histórias contadas ao redor do fogão, de disciplina firme e de afeto silencioso. Natalino teme ter sido duro demais, mas descobre que sua maior herança não foi a terra — foram as narrativas que atravessaram gerações. Ele não foi apenas estancieiro; foi guardião de memória.
Ao fundir tradição gaúcha, espiritualidade cristã e imaginação popular, o conto suaviza o tema da morte e o transforma em cavalgada final rumo à “Estância do Senhor”. A última imagem — o homem na varanda, cevando mate e chamando-o com um gesto — sela a metáfora: para quem viveu em comunhão com o campo e com a fé, partir é apenas atravessar outra porteira.
“Natalino” não fala do fim, mas da continuidade daquilo que realmente permanece: a palavra transmitida, o exemplo vivido e o pertencimento a algo maior que o próprio corpo.
O Homem das Estrelas (Bônus)
“O Homem das Estrelas” encerra Almas Esquivas como quem fecha um ciclo voltando ao ponto mais íntimo de partida. Diferente dos demais contos, marcados por conflitos familiares, sociais ou existenciais, aqui o embate é interior — silencioso e contemplativo. A infância surge como território da imaginação absoluta, onde o universo parecia alcançável. A maturidade, porém, impõe limites: crescer é aprender que certas estrelas não se tocam com as mãos.
O texto nasce da frustração dessa distância, mas não permanece nela. Ao contrário, propõe uma inversão delicada: se o cosmos é inalcançável, há ainda um universo interno a ser descoberto. A estrela que antes brilhava no alto do céu revela-se guardada no próprio peito. O gesto de “botar a mão no peito” simboliza a passagem da busca exterior para a descoberta interior — da vastidão física para a profundidade afetiva.
Num livro que percorre desencontros, ausências, ambições e despedidas, este fragmento funciona como síntese filosófica: o que buscamos longe, muitas vezes já pulsa dentro de nós. A estrela torna-se metáfora do amor — não como sentimento romântico apenas, mas como força que organiza o caos íntimo e ilumina imperfeições.
Mais do que um conto, este texto é uma semente. Nasceu de um momento de introspecção, encontrou leitores inesperados e, anos depois, germinou em outra obra. Aqui, permanece como origem luminosa — um lembrete de que, mesmo quando não alcançamos o infinito, podemos aprender a guardar estrelas.
