Paulo Bocca Nunes – 4 de janeiro de 2025
Quando eu era jovem, bem jovem, o mundo parecia um grande arco-íris estendido sobre a vastidão do céu, e as nuvens eram feitas de algodão doce. Eu acreditava em histórias que hoje parecem absurdas, mas que naquela época eram o que fazia o universo girar em torno da minha imaginação.
Disseram-me que havia um tesouro no final do arco-íris, e isso era suficiente para acender uma chama de esperança. Eu sonhava que esse tesouro poderia me dar tudo o que quisesse: uma viagem para qualquer lugar, até mesmo à Lua. E por que não? Afinal, me contaram que a Lua era feita de queijo. Na minha cabeça, fazia todo o sentido combiná-la com goiabada.
Quanto às nuvens… Bem, elas tinham uma função especial. Eu imaginava que, se fossem realmente de algodão doce, poderiam adoçar palavras duras e tornar o mundo mais suave. Era minha forma de imaginar a harmonia, de criar um lugar onde tudo pudesse ser mais leve.
Mas o tempo, sempre ele, veio e me mostrou verdades que nem sempre foram fáceis de aceitar. Descobri que o arco-íris só aparece quando há chuva, e que, muitas vezes, nem toda chuva o traz consigo. Descobri também que o arco-íris não tem extremidade que possamos alcançar; ele é uma ilusão, um jogo de luz que nunca se deixa tocar.
Quanto às nuvens, deixaram de ser flocos de algodão doce para se tornarem figuras que apenas meus olhos, cheios de lembranças, conseguiam enxergar. Passaram a ser dragões, castelos, rostos… Fragmentos de um imaginário que nunca desapareceu por completo.
Na maturidade, percebi que tanto o arco-íris quanto as nuvens não perderam sua beleza. Eles apenas deixaram de ser o que eram para se tornarem símbolos de algo maior: a capacidade de sonhar mesmo sabendo que algumas coisas são inalcançáveis.
Hoje, quando vejo a chuva passar e o arco-íris surgir no horizonte, não busco mais seu fim. Apenas admiro sua existência efêmera. Quando olho para o céu e observo as nuvens, ainda vejo as figuras da infância, mas agora com outros olhos — olhos que carregam histórias e entendem que a magia nunca foi embora; ela apenas mudou de perspectiva.
O que o tempo me ensinou é que, apesar das mudanças, eu continuo sendo a mesma pessoa. Ainda sou aquele jovem que acreditava no tesouro do arco-íris e nas nuvens de algodão doce. Só que agora, ao invés de tentar agarrar o inalcançável, eu celebro o simples fato de poder contemplá-lo.