CRÔNICAS

O Que é a Brisa?

Paulo Bocca Nunes – 30 de dezembro de 2024

O que é a brisa? Pergunto-me agora, e já não sei se a brisa é uma coisa ou um estado. Como posso definir algo tão fugaz, tão mutável, tão cheia de mistério? Abro os olhos e vejo a brisa passar, mas, ao fechar os olhos, ela já se foi. Como um suspiro do mundo, a brisa é um enigma.

A brisa, na verdade, é todas as brisas. É o vento que corre sem pressa, o ar que se move sem fazer alarde. Surge sem aviso, sempre discreta, silenciosa, e, no entanto, leva tudo. Porque, quando a brisa se transforma, ela se torna tempestade, furiosa e avassaladora, arrebatando tudo o que encontra pelo caminho. Ela nasce suave, em um instante quieta, como um segredo que o universo guarda, mas, num segundo, ela vira ventania, um furor que arranca a árvore de seu repouso, arrasta a folha para terras distantes e leva os dentes-de-leão, espalhando vida e memória por onde passa.

A brisa ri. Ri porque ela sabe que, quando chegar a hora, ela será tudo o que restará. Ela se esconde, disfarçada de carinho, nos braços de um animal, no toque de um amante, na leveza de uma criança. Ela entra sem ser percebida, encontra abrigo no simples afago, e nesse acolhimento, ela se transforma. Em um estalo, a brisa é ventania, e arrasta tudo: sonhos, promessas, risos, tudo o que encontrou pelo caminho.

E, quando a tempestade passa, o que sobra? Sobra a terra nua. A terra que ficou. E o que restou de tudo aquilo que a brisa levou? Sobra a saudade. Sobra o vazio que se estende por um lugar que já não é o mesmo. E, nesse vazio, há o eco da brisa que se foi, que transformou tudo, e que deixou para trás apenas o sussurro do que um dia foi.

Tu vieste como brisa, suave e misteriosa. E, em um instante, foste ventania. Levaste tudo, e restou apenas a saudade tua, que agora vive na terra nua do meu ser.

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