CRÔNICAS

Pavimentando Estradas

Paulo Bocca Nunes – 30 de dezembro de 2024

“Você está bem?” me perguntaram.

“Sim… estou indo de palavra em palavra, pavimentando uma estrada nos pensamentos.”

A resposta saiu tão naturalmente que quase me surpreendi com a verdade que carregava. Não era um estado de euforia nem de tristeza, mas de movimento. Um passo por vez, uma palavra por vez, eu construía meu caminho em uma paisagem feita de ideias e sentimentos.

Cada palavra era uma pedra que eu colocava com cuidado, alinhando-as para formar algo sólido em meio ao caos da mente. Algumas palavras eram leves, como areia fina que se espalha com o vento. Outras eram pesadas, difíceis de mover, mas essenciais para sustentar o trajeto.

Essa estrada não tinha um destino certo. Não era pavimentada para chegar a algum lugar específico. Ela existia para que eu pudesse continuar caminhando, mesmo quando tudo ao redor parecia indefinido.

Às vezes, o silêncio interrompia meu trabalho, e eu me sentava na beira da estrada para observar. Via as palavras que já havia colocado – algumas tortas, outras brilhando sob o sol da memória. Elas contavam histórias, refletiam as dores e as alegrias que me trouxeram até ali.

Em outras ocasiões, eu tropeçava nas pedras soltas, em palavras que ainda não faziam sentido ou que estavam fora do lugar. Mas tudo bem. O importante era continuar pavimentando.

Porque, no fim, a estrada não é apenas o que eu faço. Ela é o que sou.

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