CRÔNICAS

Ventos da Mudança

Paulo Bocca Nunes – 26 de dezembro de 2024

Os ventos de dezembro no Rio Grande do Sul têm uma personalidade própria, como se fossem artistas de um espetáculo que marca o fim do ano. Eles não chegam apenas para refrescar, mas para trazer movimento — um lembrete de que o tempo segue, mesmo quando queremos que ele pause. O dia está quente, é verdade, mas as nuvens dançam no céu com uma leveza que parece quase infantil, entregues à coreografia improvisada do vento.

Há algo nesse cenário que carrega um paradoxo tão comum ao verão gaúcho: ele demora a se estabelecer, como um convidado que hesita antes de entrar na festa, mas quando chega, preenche tudo com sua presença. Ainda não é verão pleno; são os últimos ventos de 2024, aqueles que sussurram às árvores e às pessoas que uma transição está em curso.

O “verão da mudança”, como gosto de chamá-lo, não é apenas um marco no calendário. Ele traz consigo a promessa de dias diferentes, talvez mais leves, talvez mais desafiadores. Não sabemos ao certo o que 2025 reserva, mas os ventos que agora dançam parecem querer nos preparar, como um maestro que ensaia uma melodia nova.

E assim seguimos, observando o céu e sentindo o sopro do tempo na pele. Dezembro é um mês de balanço, mas também de esperança. E enquanto o vento brinca lá fora, algo dentro de nós também se move, como se o ciclo do ano, ao girar, também levasse nossas incertezas e nos convidasse a abrir os braços para o que está por vir.

Os ventos de dezembro sopram audazes,
Como arautos de um tempo que surge.
Eles dançam no céu, em ondas fugazes,
Rasgando as nuvens que o sol não urge.

Trazem mensagens de eras passadas,
E um eco do futuro que além desponta.
São fios que tecem as já gastas jornadas,
Mas também o começo que nos confronta.

Oh, ventos, que correm livres e inteiros,
Em suas notas só sentimos o impulso.
Levantam a poeira dos caminhos primeiros,
E renovam a alma com seu avulso.

Dezembro é seu palco, é o mês derradeiro,
Mas é também portal do novo destino.
O calor que desponta, bravio e fagueiro,
É sinal de que o tempo é peregrino.

Assim nos conduz, o vento e seu canto,
Deixa as folhas dançarem, num último ato.
E ao sussurrar, desperta o encanto:
“Prepare-se, humano, o mundo é teu palco.”

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