Esse livro é a segunda edição do livro publicado em 2010 com o acréscimo de outros. O que seria da vida não fosse o olhar de cada um para um mundo em constante mudança?

Tamanho: 14 x 21 cm
Número de páginas: 80
ISBN 978-65-992322-3-7
R$ 36,00
Um canto íntimo entre o amor, o mundo e o tempo
Há livros que nascem como projeto. Outros nascem como necessidade.
Serenata Serena Com Novas Toadas pertence a uma terceira categoria: nasce como gesto.
Um gesto de quem escreve sem reivindicar o título de poeta, mas não consegue deixar de cantar.
Desde o primeiro poema — “Serenata serena” — a palavra “serena” funciona como eixo simbólico da obra. A chuva cai serena. A vida será serena. A serenata é distante. O livro inteiro se constrói nessa cadência: não é o grito da praça, é o canto da janela; não é o manifesto estridente, mas a voz que atravessa o tempo como vento leve — e justamente por isso permanece.
A poesia como travessia de vida
O livro percorre uma trajetória existencial clara. Em poemas como “Versos de moço”, o eu lírico revisita a juventude com franqueza quase desconcertante. Não há idealização: há reconhecimento. Amor vivido, amor perdido, erros assumidos, excessos confessados. O passado não é exaltado — é compreendido.
Essa maturidade reflexiva reaparece em textos como “Sentidos”, onde a infância é lembrada como tempo de experimentação radical do mundo. A repetição da palavra “sentido” não é mero jogo verbal; é questionamento filosófico: crescemos para encontrar sentido ou para desaprender a vê-lo?
Ao longo da obra, percebe-se que o tempo é personagem constante. Relógios aparecem, dias nascem e morrem, rotinas se repetem em “Trajetória”, a vida se organiza entre café, trabalho, filas, cansaço e dor de cabeça. O cotidiano não é negado — é poetizado.
Amor: entre o indizível e o cósmico
O núcleo lírico-romântico do livro é amplo, mas não ingênuo. Em “Impressões”, “Luzes de outono”, “Definição”, “Se me queres” e “O céu e o mar”, o amor reorganiza a realidade. O pôr-do-sol parece feito para dois. A lua espia pela janela. O mar e o olhar da amada tornam-se espelhos cósmicos.
Há, porém, uma intuição filosófica delicada: definir é limitar. Em “Definição”, os olhos da amada não podem ser conceituados — porque, se fossem, perderiam sua essência. Amar, aqui, é preservar o mistério.
O amor não é apenas sentimento: é força criadora de mundos.
O olhar social ne a ironia política
A serenata também sabe observar o mundo.
Em “José operário”, a repetição quase litúrgica denuncia a desigualdade estrutural: a “bomba” sempre estoura no mesmo lugar. Em “Soneto do dinheiro” e “O pirulito da eleição”, a crítica assume forma rimada e satírica. Já em “Banana Sunday”, o humor se transforma em caricatura política — um retrato ácido do populismo e da superficialidade pública.
Esses poemas revelam uma consciência social que não abandona a musicalidade. A crítica não se faz por panfleto, mas por ritmo e ironia.
A força da síntese
Um dos traços mais marcantes do livro é a capacidade de condensação. Muitos poemas são breves, quase aforismos líricos:
- “Viver um dia de cada vez é importante. / Viver bem um dia de cada vez é melhor.”
- “A primavera não precisa de um poema. / Ela é o próprio poema.”
- “Ao virarmos a folha de um livro nós formamos o vento necessário para empurrar o navio da nossa imaginação.”
Aqui, a poesia se aproxima da máxima filosófica. Não busca complexidade formal — busca clareza essencial.
Linguagem, ritmo e musicalidade
Predomina o verso livre, com uso frequente de repetição, paralelismo e enumeração. A musicalidade nasce da cadência interna — coerente com a ideia de serenata. Há momentos de humor lúdico, como em “Ivo viu a uva”, onde a brincadeira fonética transforma um exercício quase infantil em narrativa afetiva sobre encontro e partilha.
Há também experimentações formais interessantes, como “Caminhadas”, construída apenas por verbos que traduzem movimento, queda, persistência e chegada. É quase um resumo da vida em ações sucessivas.
Entre o íntimo e o universal
O livro oscila entre o quarto e a praça, entre a janela e o planeta. Em “Festa final”, estrelas dançam no Armagedom. Em “Navegar”, o amor assume forma mitológica — sereia e Proteu atravessando tempestades. Em “Estamos em guerra”, o mundo contemporâneo aparece fragmentado e inquieto.
Mas, ao final, o livro retorna à serenidade inicial. Poemas como “Sol na alma”, “Dia feliz” e “Serenamente” indicam uma escolha ética: viver melhor, escolher melhor, excluir o que não constrói.
Não se trata de ingenuidade. Trata-se de decisão.
Uma serenata que permanece
Serenata Serena Com Novas Toadas é um livro que aceita sua própria simplicidade como força estética. Não busca hermetismo, mas verdade. Não reivindica grandiosidade, mas permanência.
É a poesia de quem canta porque vive.
E vive porque canta.
Entre a juventude e a maturidade, entre o amor e a crítica social, entre a ironia e a contemplação, este livro oferece ao leitor algo raro: um percurso humano reconhecível.
Ao final, fica a sensação de que a serenata continua — não como espetáculo, mas como presença.
E talvez seja exatamente isso que a torna serena.
