CRÔNICAS

Um Abraço

Paulo Bocca Nunes – 13 de janeiro de 2025

Há um desejo que não se explica, mas que se sente com toda a intensidade de uma vida inteira: o desejo de um abraço. Não um abraço qualquer, daqueles que as convenções sociais moldam e entregam de forma fria e automática. Não. Eu queria um abraço que roubasse o fôlego, que apagasse por um instante todo o ruído do mundo.

Queria um abraço que tivesse a força de uma promessa — não de palavras, mas de presença. Um abraço que envolvesse mais do que o corpo, que alcançasse a alma. Que fosse tão sincero e pleno que pudesse me lembrar de que ainda existem abraços que não trazem dor.

Sim, porque há abraços que ferem, mesmo que não aparentem. Há aqueles que enganam, que se disfarçam de afeto enquanto carregam o peso da deslealdade. Há abraços que parecem feitos de vidro: frios, frágeis e perigosos. Já recebi esses. Já me perdi nesses.

Mas o abraço que eu desejo não tem máscara, nem intenção oculta. Ele seria uma ponte entre dois corações que, ainda que desconhecidos, entendem o valor do calor humano. Um abraço que apagasse os ecos da tristeza, que varresse os escombros das desilusões e deixasse apenas um terreno fértil para um novo começo.

Penso, às vezes, que as estrelas sabem abraçar. Elas brilham de tão longe, mas mesmo assim parecem se debruçar sobre nós, ouvindo silenciosas as confissões que não ousamos dizer em voz alta. É um tipo de abraço invisível, mas ainda assim sincero.

E sei também que Deus nos abraça todos os dias, mesmo que não percebamos. É um abraço eterno, que sustenta o mundo inteiro. Mas, entre as orações e as estrelas, há um vazio que só pode ser preenchido pelo toque humano.

Por isso, ainda espero por um abraço simples. Sem rótulos ou expectativas. Um abraço que não seja um jogo de palavras não ditas ou de promessas que jamais serão cumpridas. Apenas um abraço. Um encontro que não precisa de explicação, apenas de coração.

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