Livro publicado inicialmente em 1915 por Mar Shedlock, traz os relatos da contadora de histórias francesa, que fez carreira nos Estados Unidos, que são um verdadeiro ensinamento aos iniciantes da arte de contar histórias. Tradução de Paulo Bocca Nunes.

Tamanho: 14 x 21 cm
Número de páginas: 120
ISBN 978-85-66992-05-2
Livro Físico
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A Arte de Contar Histórias: tradição, performance e humanidade
Publicado originalmente em 1915, A Arte de Contar Histórias, de Marie Shedlock, com a tradução de Paulo Bocca Nunes, não é apenas um manual técnico sobre narrativa oral — é um testemunho vivo de uma arte que atravessa séculos e se renova a cada geração.
Esta edição em português nasce de um reencontro. O livro foi descoberto anos atrás por Paulo Bocca Nunes, em meio às atividades acadêmicas do Mestrado e à intensa rotina de formação. À primeira vista, parecia apenas mais uma obra histórica sobre educação. Contudo, ao ser retomado com atenção — já sob o olhar amadurecido de quem há décadas vive a prática da contação de histórias — revelou-se surpreendentemente atual.
Ao longo de uma trajetória que começou na infância, ouvindo histórias em sala de aula e em rodas familiares, o tradutor Paulo Bocca Nunes passou pelo teatro na juventude e se consolidou em oficinas, bibliotecas e projetos culturais, a experiência prática foi construindo um entendimento intuitivo sobre gesto, voz, ritmo e presença. No mestrado, esses elementos reuniram-se sob um conceito: performance. Ao ler Shedlock, surgiu o reconhecimento imediato — aquilo que hoje nomeamos performance, ela chamava de “drama” ou “dramaticidade”.
Essa convergência não foi apenas intelectual; foi quase afetiva. Traduzir o livro tornou-se, então, uma tarefa natural — quase necessária. Não se tratava apenas de verter um texto do inglês para o português, mas de compartilhar com leitores brasileiros uma obra que dialoga profundamente com a prática contemporânea da narrativa oral.
A arte como presença — não como exibição
Um dos pontos centrais da obra é a distinção entre o narrador verdadeiro e o exibicionista da palavra. Ao evocar o episódio do rouxinol verdadeiro e do rouxinol mecânico de Hans Christian Andersen, Shedlock constrói uma metáfora poderosa: o contador de histórias não deve expor a maquinaria da técnica, mas ocultá-la sob a simplicidade.
Essa simplicidade, porém, não é espontaneísmo ingênuo. É resultado de preparação, estudo e autocontrole. Para Shedlock, a arte de narrar exige disciplina. Somente quando se superam as dificuldades mecânicas é possível “deixar-se levar” pelo interesse dramático da história.
Aqui reside um dos aspectos mais modernos da obra: a compreensão da narrativa como performance. O que hoje se discute sob esse termo — especialmente nos estudos de oralidade — aparece na obra de 1915 sob a palavra “drama” ou “dramaticidade”. A voz, o gesto, o foco, o ritmo, a contenção — tudo compõe o ato narrativo.
Educação sem didatismo
Embora professora de formação, Shedlock não transforma a contação de histórias em instrumento utilitário de ensino. Ela recusa a moralização explícita. Para ela, a história educa não por imposição, mas por encantamento.
Seus objetivos educacionais são claros:
- proporcionar alegria dramática;
- desenvolver o senso de humor;
- sugerir consequências éticas sem ênfase moralizante;
- mostrar como ideias se traduzem em ações;
- estimular a imaginação.
A imaginação, aliás, é o eixo que sustenta todos os demais pontos. Num momento histórico em que a escola começava a sistematizar conteúdos e métodos, Shedlock lembra que a criança aprende também pela emoção, pelo símbolo e pelo encantamento.
O prefácio de Earl Barnes reforça essa dimensão ao afirmar que, mesmo que um dia exista uma ciência completa da educação, a arte continuará sendo a inspiração dos professores sábios. A técnica pode ser ensinada; o espírito artístico precisa ser cultivado.
Uma obra situada no tempo — e além dele
É evidente que o livro carrega marcas de sua época. Expressões como “cinematógrafo” revelam o contexto histórico. Algumas concepções pedagógicas podem soar datadas. No entanto, o núcleo da obra permanece atual: a defesa da narrativa como experiência estética e humana.
Shedlock escreve num período anterior à massificação do cinema e muito antes da cultura digital. Ainda assim, suas reflexões dialogam com questões contemporâneas: a diferença entre presença viva e mediação mecânica, entre arte e espetáculo, entre formação humana e mera transmissão de informação.
Sua trajetória — das escolas inglesas às bibliotecas americanas — demonstra como a contação de histórias foi se institucionalizando como prática cultural e educativa. Shedlock contribuiu decisivamente para que a narrativa oral fosse reconhecida como arte legítima e campo de estudo.
A tradução como gesto de continuidade
A tradução desta obra não é apenas um trabalho linguístico — é um gesto de continuidade cultural. Ao trazer para o português um texto que não possuía edição acessível ao público brasileiro, amplia-se o alcance de uma tradição.
Traduzir, como lembra Umberto Eco, não significa simplesmente transferir palavras de um código a outro, mas negociar sentidos. E é justamente isso que esta edição propõe: preservar o espírito da autora sem perder de vista o leitor contemporâneo.
Por que ler A Arte de Contar Histórias hoje?
Porque vivemos numa era de excesso de informação e escassez de presença.
Porque a arte de narrar continua sendo uma das formas mais profundas de comunicação humana.
Porque professores, escritores, artistas e mediadores de leitura encontrarão aqui não apenas técnicas, mas uma filosofia da narrativa.
E, sobretudo, porque este livro lembra algo essencial: contar histórias é um ato de humanidade. É sentar-se diante do outro e, por meio da palavra viva, criar um espaço de partilha, imaginação e sentido.
Mais de um século depois de sua publicação, A Arte de Contar Histórias permanece como um convite — não apenas a aprender a narrar, mas a compreender a narrativa como uma das mais antigas e mais necessárias artes da experiência humana.
